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  • Haeixa Pinheiro, primeira negra a ser escolhida princesa nos 77 anos da Festa das Flores, de Joinville, disse que sofreu racismo, mas ganhou apoio nas redes sociais

Duas das maiores e mais tradicionais festas agrícolas de Santa Catarina começaram a quebrar tabus elegendo pela primeira vez rainha e princesa negras.

Em 23 anos de Festa da Cebola, em Ituporanga, no Alto Vale do Itajaí, nenhuma menina negra havia sido coroada rainha até a eleição de Vitória Regina, 16, em janeiro deste ano. A adolescente representará pela primeira vez a negritude na maior festa agrícola de Santa Catarina, em abril.

Em novembro do ano passado, a modelo Haeixa Pinheiro, 23, foi a primeira negra a ser escolhida princesa nos 77 anos da Festa das Flores, de Joinville, no norte do Estado. Ela ocupa o cargo de segunda princesa.

No caso de Vitória, a atual rainha não esperava ganhar, mas garante que não sofreu nenhuma discriminação. "Fui na pilha de amigos, não achava que eu pudesse ser escolhida. Quando falaram meu nome todas as pessoas ficaram assustadas", disse.Já Haeixa diz que sofreu preconceito como uma onda de comentários racistas. "Você não tem cultura própria e quer acabar com a cultura da cidade? Negros só aparecem no carnaval. Essa é uma festa alemã, não é festa de negros", diziam algumas intimidações publicadas em sua página do facebook.

Moradores da cidade chegaram a incentivá-la a desistir do concurso. Haeixa persistiu e foi eleita segunda princesa. "A Festa das Flores não é alemã. É uma festa da cidade, por isso resolvi participar. Sei que Joinville é uma cidade racista. Meu noivo é loiro de olhos claros, quando ando com ele na rua vejo as pessoas incomodadas. Uma negra bonita incomoda mesmo. Mas, com essa vitória tenho certeza que outras mulheres de pele preta não irão se esconder. Mostrarão sua beleza. Essa é minha maior satisfação".

Mesmo após ser coroada, a modelo sofreu preconceitos.  "Um dos aprendizados que adquiri com o concurso é vencer as barreiras. Um dia eu estava desfilando no pavilhão com a outra princesa e a rainha. Uma menina de seis anos, mais ou menos, pediu para tirar uma foto. Mas ela não queria que eu aparecesse. Fiquei triste porque ninguém nasce racista. Uma criança não odeia de graça o amiguinho negro ou pobre. Ela aprende em casa. Em compensação crianças da minha cor me abraçavam, diziam 'como tu é linda, tia. Quando crescer quero ser princesa como você'".

Vitória também busca ser a inspiração das próximas candidatas negras. "Não podemos mais ter medo, vergonha. Nossa cor é linda. Azar de que achar o contrário", defendeu.

Predominantemente brancas

A Festa da Cebola será comemorada entre os dias 7 e 10 de abril no Alto Vale do Itajaí, em Ituporanga, cidadezinha de 24 mil habitantes, onde apenas 401 pessoas declararam "cor ou raça preta" no último Censo, em 2010. A festa reúne anualmente mais de 100 mil pessoas. Se Santa Catarina tem a maior concentração de brancos do país, 97,1%, o Vale do Itajaí possui a maior população branca de Santa Catarina. A região foi um dos principais polos da colonização europeia no sul do país, com a imigração de alemães, italianos e poloneses a partir de 1835.

Já a Festa das Flores acontece em novembro, em Joinville, uma cidade de 526 mil habitantes, no Norte do Estado, onde 13 mil pessoas se declararam negras, no último censo.


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